O primeiro, é um lívro que estava a venda na Feira de Lívros de Saldo em Braga e que tem feito correr tinta nos jornais. Acontece que num stand de vendas estava exposto um lívro de nome "Pornocracia", cuja capa tinha exposta a víl imagem do sexo de uma mulher. Desde logo, alguns transeuntes mais conservadores (será que existem mesmo?) se manifestaram e fizeram questão de se dirigirem à esquadra mais próxima da PSP para apresentar uma queixa. Confesso que nunca ví eu alguém da polícia saltar tão rápido da sua esquadra para fazer uma apreensão do que quer que seja.
Analisando este caso do meu ponto de vista, saltam-me logo algumas dúvidas à cabeça.
Gostava de saber se algumas das pessoas que se mostraram tão escandalizada ao ver o sexo de uma mulher na capa de um lívro, nunca o viu na realidade...
Gostava de saber também, se estas mesmas pessoas se manifestam tão conservadoras, quando surge a Soraia Chaves ou a Claúdia Vieira expostas, ainda que breves segundos, nos spots publicitários dos filmes que fazem...
Pondo isto de parte, acho que me posso permitir analisar este caso. Parece-me que estamos perante, mais uma vez, uma situação de puritanismo excessívo e falso moralismo. Sim, porque essas pessoas que supostamente fizeram queixas e se sentiram tão escandalizadas com a capa daquele lívro, demonstram aquilo que realmente são.. uma fachada. Numa terra, onde, quando mija um português, mijam logo dois ou três, mesmo que nenhum deles tenha vontade, parece-me óbvio que foi isto que aconteceu. Não sei quantas pessoas fizeram queixas do lívro, mas se há, acredito que algumas delas fizeram queixa, não sabendo muito bem do quê.
Isto põe à vista outra situação. O nível cultural do povo português. A capa daquele lívro é de um quadro de um pintor francês oitocentista, de nome Gustave Courbet. O homem deve, neste momento, estar a dar pulos de alegria no túmulo, pois um dos seus maiores prazeres, além de pintar, era afrontar a sociedade. Este quadro foi feito a pedido de um diplomata turco que lhe encomendou a peça para ter na sua colecção de arte erótica, mais tarde doada ao Museé D'Orsay em Paris, França, após vários donos.
Outro tema que salta à vista, é a acção da PSP, sempre célere em resolver estes casos pequenos, sem qualquer tempo a perder. Se algum de nós, ou até mesmo daquelas pessoas que se queixaram da capa do lívro, fossem à mesma esquadra dizer que tinham sido assaltados ou outra coisa qualquer, sería necessário preencher uma data de papelada até que algum agente se dignasse a sair da sua secretária para ir procurar, prender ou fazer o que quer que seja, ao agressor. Escudados sobre a missiva de que a "medida cautelar para evitar uma alteração da ordem pública e o cometimento de outros crimes”, dada a “iminência de confrontos físicos” no recinto da feira. Dá-me vontade de rir. O único que os polícias deste país sabem fazer, é andar em recintos a barrarem a liberdade de expressão à procura de qualquer coisa, qual PIDE ou então andar por aí nas bermas da estrada, escondidos, a passar multas e à caça do incauto.
Agora, ao que tudo indica, segue já uma queixa do livreiro para a os tribunais, parece também que os lívros irão ser devolvidos, não com a mesma celeridade com que foram apreendidos, como não podería deixar de ser, e o melhor disto tudo, é que esse lívro de Catheríne Breillat, vai vender a rodos aqui em Portugal, depois de este incidente, mesmo que não seja para ler, mas pelo menos para se dizer que se tem.
A outra obra, é supostamente de Sartre. E supostamente, porque ela não existe, a não ser que seja um qualquer manifesto do filosofo francês que toda a gente desconhece. Este título surge agora porque o Dtr. Pedro Paços Coelho disse que para além de Kafka, entre outros, referiu ter lido esta obra na sua juventude. De facto não interessa a ninguém o que é que ele leu. Mas também enganar-se num título de um lívro, ou no seu autor, não é crime de morte. O mais apróximado que encontro com esse título é um lívro de nome "Fenomenologia do Ser Humano" de Angela Alves Bello. Terá sido este? Talvez... Poderá também ter sido um lívro de Hegel, mas de nome "Fenomenologia do Espírito", datado de 1806. Sarte era seguidor de Hegel, logo, poderá ter surgido daí a confusão.
Uma breve pesquisa no Google, permitiu-me perceber um pouco mais sobre este fenómeno da Fenomenologia e passo a transcrever: "A Fenomenologia, nascida na segunda metade do
século XIX, a partir das análises de
Franz Brentano sobre a intencionalidade da consciência humana, trata de descrever, compreender e interpretar os
fenómenos que se apresentam à percepção. Propõe a extinção da separação entre "sujeito" e "objecto" (opondo-se ao pensamento positivista do
século XIX) e examina a realidade a partir da perspectiva de primeira pessoa.
O método fenomenológico se define como uma volta às coisas mesmas, isto é, aos fenómenos, aquilo que aparece à consciência, que se dá como objecto intencional.
Seu objectivo é chegar à intuição das essências, isto é, ao conteúdo inteligível e ideal dos fenómenos, captado de forma imediata.
Toda consciência é consciência de alguma coisa. Assim sendo, a consciência não é uma substância, mas uma actividade constituída por actos (percepção, imaginação, especulação, volição, paixão, etc), com os quais visa algo".
Desta pequena percepção do que é a Fenomenologia, saltaram-me logo duas caracteristicas à vista: imaginação e especulação.
Pedro Paços Coelho foi inteligente. E vou explicar porquê. Consciente (ou não) de que estava a mentir, sabia (ou não) que a partir do momento em que falasse de uma coisa que não existia, algumas pessoas iriam desde logo tentar contraria-lo, como de facto aconteceu, e o povo português, na medida do querer saber se de facto haveria fundamento de verdade nas palavras dele, iriam pesquisar e tentar saber se de facto ele disse a verdade e se de facto esse livro existiria ou não. Logo, ele especulou sobre um título inexistente, imaginando que o leu. E pôs algumas pessoas mais cultas um bocadinho.